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Geração distribuída · · · 10 min de leitura

Data centers vão consumir 10x mais energia até 2036 — a rede está pronta?

O consumo de eletricidade dos data centers de grande porte no Brasil deve passar de 3 TWh em 2026 para 30 TWh em 2036. O número está no Relatório Síntese do Plano Decenal de Expansão de Energia 2036 (PDE 2036), submetido à consulta pública pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de…

O consumo de eletricidade dos data centers de grande porte no Brasil deve passar de 3 TWh em 2026 para 30 TWh em 2036. O número está no Relatório Síntese do Plano Decenal de Expansão de Energia 2036 (PDE 2036), submetido à consulta pública pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em 8 de outubro de 2026.

Em termos de volume, o sistema elétrico absorve esse crescimento sem dificuldade. As restrições aparecem em três outros pontos: o lugar onde cada projeto se conecta, a hora em que consome e o ano em que a rede chega até ele. O debate público costuma resumir tudo a uma ideia só: levar os data centers para o Nordeste, onde a energia eólica e solar é cortada por falta de consumo. Os números do próprio plano mostram o que essa ideia resolve e o que ela deixa de fora.

De onde vem o “10x”

O PDE 2036 cria uma categoria chamada “grandes cargas”, que inclui data centers de grande porte, plantas de hidrogênio eletrolítico e de eletromobilidade. O consumo do grupo sobe de 4 TWh para 47 TWh. Os data centers respondem por 30 TWh, a eletromobilidade por 15 TWh e o hidrogênio por 3 TWh, sendo este último apenas na segunda metade da década.

Consumo das grandes cargas em 2026 e 2036 e distribuição prevista dos novos investimentos em data centers de grande porte por subsistema. Fonte: EPE, PDE 2036 (Figura 2-12 e seção 2.3).

A EPE projeta que o segmento de data centers, como um todo, cresça 13,7% ao ano, o que equivale a multiplicar o consumo por cerca de 3,6 em dez anos. Isto inclui as instalações já existentes, muitas delas pequenas e ligadas à rede de distribuição. O salto de dez vezes aplica-se aos projetos de grande porte, aqueles que, nas palavras do plano, “tendem a buscar conexão direta com a rede básica”. A diferença entre os dois ritmos indica uma mudança de escala: o consumo migra de salas de servidores dentro de empresas para projetos de centenas de megawatts.

Trinta terawatts-hora por ano correspondem a cerca de 3,4 GW médios e a pouco mais de 3% do consumo nacional projetado para 2036, de 979 TWh. O efeito sobre a estrutura do consumo é maior do que essa fatia sugere. A classe comercial, na qual os data centers são contabilizados, cresce cerca de 6% ao ano, o dobro da indústria, e sua participação no consumo sobe de 19% para 24%.

A principal incerteza está no tamanho da fila. O plano prevê cerca de 3,7 GW de grandes cargas concentradas em 2036, incluindo data centers e hidrogênio. Só na fase de transição da nova política de acesso à transmissão, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) emitiu pareceres para 13,5 GW de novas unidades consumidoras. As duas grandezas não são diretamente comparáveis, porque uma mede o consumo médio e a outra, a demanda máxima contratada, e nem todo pedido de consumo é de data center. Ainda assim, a distância mostra que o cenário de referência pressupõe que boa parte dos projetos anunciados não sairá do papel na década ou que sairá em etapas. Se essa hipótese falhar, o número subestimado será o de 30 TWh.

Uma carga que não acompanha o sol

O PDE considerou o perfil dos data centers ligados à rede básica “relativamente uniforme ao longo do dia”. Um campus de 300 MW consome cerca de 300 MW às 3h, às 12h e às 19h. Essa regularidade facilita a contratação de energia, pois o consumidor compra um bloco de energia com consumo constante. Para o sistema, ela tem um custo: cada megawatt de data center aparece de uma só vez na hora mais difícil do dia, o começo da noite, quando a geração solar some.

O plano projeta uma demanda máxima de 155 GW em 2036 e identifica a necessidade adicional de cerca de 24 GW para o mesmo ano, mesmo após o leilão de reserva de capacidade de março de 2026. Os 3,4 GW médios dos data centers entram nessa conta sem desconto. O relatório faz ainda uma ressalva: se a parcela dedicada ao treinamento de modelos de inteligência artificial for ampliada, o perfil pode deixar de ser plano, e a EPE admite que ainda não sabe como.

O custo das turbinas a gás subiu no mercado internacional, em parte devido à “demanda por equipamentos de geração para atender à expansão de data centers” no mundo. Esse aumento já apareceu nos preços do leilão de março. O consumidor brasileiro paga, na reserva de capacidade, parte da corrida global por energia firme para servidores.

A eficiência atenua o quadro sem alterá-lo. A migração para instalações dedicadas e a adoção de refrigeração líquida reduzem o consumo por unidade de processamento. O PDE lembra, porém, que, em clima quente e úmido, as oportunidades de resfriar os equipamentos com ar ou água do ambiente são mais limitadas, o que aumenta o consumo de energia na climatização. A observação pesa na comparação entre o litoral do Nordeste e os planaltos do Sudeste e do Sul.

Onde os projetos querem ficar

Segundo o plano, mais de 65% dos novos investimentos em data centers de grande porte devem ir para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, quase 30% para o Nordeste e 5% para o Sul. A explicação é comercial. Os projetos “tendem a se localizar próximos aos principais centros consumidores”, onde estão os clientes e a rede de fibra já instalada.

O mercado confirmou essa preferência dois dias antes da divulgação do plano. Em 6 de outubro de 2026, o ONS realizou a primeira disputa pela capacidade remanescente da rede básica. Sete empreendimentos, com demanda de 451 MW, concorreram por 228 MW em quatro pontos de conexão, todos no estado de São Paulo. Três data centers ficaram com tudo. Nessa primeira rodada, foi o único lugar do país em que a procura superou a oferta a ponto de haver disputa.

O Nordeste tem argumentos próprios, que o PDE lista: os pontos de ancoragem de cabos internacionais de fibra óptica, a oferta de energia renovável e o potencial de desenvolvimento regional. Fortaleza recebe nove (9) dos dezesseis (16) sistemas de cabos submarinos do país, segundo o Ministério das Comunicações. A Lei 15.504/2026, que criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), sancionada em 15 de setembro, reduz em 20% as contrapartidas exigidas de quem se instalar no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste.

O Redata também exige que 100% da demanda elétrica seja proveniente de fontes renováveis ou de baixa emissão. Essa exigência é contratual. Um data center em Paulínia pode cumpri-la comprando energia de um parque eólico na Bahia, já que ambos estão no mesmo sistema interligado. O contrato abrange o país, mas o consumo físico permanece no Sudeste. A regra, portanto, não aproxima o projeto da usina.

A conta do excedente

De janeiro a agosto de 2026, o ONS cortou 3.403 MW médios de geração eólica e solar no Nordeste, segundo levantamento do Canal Solar, com base em dados do operador. No país, foram 4.122 MW médios, e 69% desse total tiveram como causa a chamada razão energética, quando a oferta supera a carga em determinado instante.

Do outro lado, os data centers do Nordeste. Se a região receber 30% do consumo adicional previsto, serão cerca de 8 TWh por ano em 2036, o que equivale a 0,9 GW médios. A conta é uma aproximação, pois o plano informa a fatia do investimento, não a do consumo. Mesmo em um cenário cheio, a nova carga corresponderia a pouco mais de um quarto do corte atual.

A comparação de médias ainda favorece demais a ideia. O corte por razão energética concentra-se nas horas de sol. Um data center de consumo flat (constante) aproveita o excedente nessas horas e continua consumindo a mesma potência às 19h, quando não há excedente e o sistema precisa acionar hidrelétricas, termelétricas ou baterias. O PDE descreve como algumas termelétricas, para estarem disponíveis à noite, precisam ser ligadas antes e permanecer em geração mínima durante o dia, ocupando espaço que seria da eólica e da solar. Uma nova carga de 24 horas reduz o corte durante o dia e aumenta a necessidade de potência à noite.

Isso ajuda a entender por que o plano, mesmo com 30 TWh de data centers no cenário, projeta cortes médios da mesma ordem de grandeza entre 2026 e 2036. O relatório cita “novas cargas flexíveis” entre as medidas que podem reduzir o excedente. A palavra que importa é “flexíveis”: cargas capazes de consumir mais quando sobrarem e menos quando faltarem. Um data center típico não opera assim.

Há um benefício real: é de rede. Parte dos cortes no Nordeste ocorre devido ao limite de exportação para o Sudeste. O consumo na região utiliza a energia antes do gargalo e, em certa medida, dispensa a construção de novas linhas.

A rede está pronta?

A pergunta tem três respostas. Em energia, sim: 30 TWh equivalem a 3% do consumo de 2036, em um sistema que, em 2026, corta a geração eólica e solar a uma taxa anual da mesma ordem. Em potência, depende do que for contratado para a noite, tema que o plano trata com 19,6 GW de recursos indicativos ainda sem contrato.

Em conexão, ainda não. Esse é o limite que os projetos encontram primeiro. No Nordeste, a EPE concluiu, em junho de 2026, um estudo para atender a até 4 GW de carga eletrointensiva nas regiões de Pecém, no Ceará, e de Parnaíba, no Piauí. São 1.848 km de linhas de 500 kV e R$ 5,68 bilhões, com início de atendimento a partir de 2032. Recomenda-se apenas R$ 1,09 bilhão para o primeiro ano. O restante fica condicionado à confirmação das cargas. A rede espera a carga se confirmar, e o investidor em data center espera pela rede.

Em São Paulo, a solução tem sido extrair mais da infraestrutura existente. O PDE cita estudos que recomendam dispositivos de controle de fluxo nas linhas da capital, equipamentos que podem ser instalados em cerca de 18 meses e que adiam a realização de obras maiores. Isso alivia a espera, mas não cria nova capacidade na escala dos pedidos.

Quem planeja um data center ou pretende vender energia para um deve separar as três camadas. O contrato de energia renovável é a parte mais fácil. O ponto de conexão e o ano em que ele estará disponível definem o cronograma. E a potência para as horas sem sol define quanto o sistema e, em algum momento, o próprio consumidor pagarão pela garantia de suprimento.

Essa terceira camada é a que o debate sobre o Nordeste costuma omitir. Para que uma carga de 24 horas aproveite energia que só sobra durante o dia, é preciso deslocá-la para a noite. O PDE 2036 atribui a tarefa a uma tecnologia ainda não contratada no sistema interligado e reserva-lhe 7,2 GW. O que esse número representa é o assunto do artigo “Baterias no PDE 2036: o que 7,2 GW resolvem e o que fica de fora”.

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