Preço-teto dos leilões de armazenamento: como a EPE calculou o CMR de R$ 1,76 milhão/MW.ano no Leilão 5/2026 e de R$ 1,58 milhão/MW.ano no Leilão 6/2026, e o que isso diz sobre o seu lance
Preço-teto dos leilões de armazenamento: como a EPE calculou o CMR de R$ 1,76 milhão/MW.ano no Leilão 5/2026 e de R$ 1,58 milhão/MW.ano no Leilão 6/2026, e o que isso diz sobre o seu lance
Na minuta do edital do Leilão nº 5/2026-ANEEL — o LRCAP Armazenamento Nacional, publicado em 29 de outubro de 2026 —, o preço inicial do produto de armazenamento com conteúdo nacional constava como “R$ xxx por megawatt-ano”. O edital publicado nesta semana revelou o número: R$ 1.760.000/MW.ano, para produto de conteúdo local e R$ 1.580.000/MW.ano para produto não local .Os editais publicados nesta semana revelaram os números: R$ 1.760.000/MW.ano no Leilão 5/2026, com conteúdo local, e R$ 1.580.000/MW.ano no Leilão 6/2026, sem essa exigência. Os valores não vieram do nada. A EPE publicou a metodologia completa que usou para chegar a eles, na Nota Técnica EPE-DEE-RE-081/2026, revisada em 14 de outubro. O documento não revela as memórias de cálculo, mas mostra o que entra no cálculo, o que fica de fora e quais premissas sustentam o resultado. Para quem vai ofertar em qualquer um dos dois certames, entender de onde saíram esses números vale tanto quanto conhecê-los.
O que é o Custo Marginal de Referência
O Decreto nº 5.163/2004 determina que os editais de leilão contenham o Custo Marginal de Referência (CMR), calculado pela EPE e aprovado pelo Ministério de Minas e Energia. No LRCAP Armazenamento, ele baliza o preço inicial do produto: nenhum lance pode partir acima desse valor. É exatamente esse valor que aparece no item 10.5.1 do edital do Leilão 5/2026, e o mesmo raciocínio vale para o Leilão 6/2026, cujo preço inicial é de R$ 1.580.000/MW.ano.
A definição é mais específica do que o nome sugere. O CMR corresponde à maior estimativa de custo entre os empreendimentos necessários e suficientes para atender ao requisito de potência definido pelo ministério. Não é o custo médio dos projetos nem o de um projeto típico. É o custo do último projeto que o sistema precisaria contratar.
Vale registrar o contraste entre os dois certames. O Leilão 5/2026, com exigência de conteúdo nacional, tem teto de R$ 1,76 milhão/MW.ano. O Leilão 6/2026, sem essa exigência, tem teto de R$ 1,58 milhão/MW.ano. A diferença de cerca de 11% entre os dois é, na prática, o preço que o país está pagando pela nacionalização da cadeia — e é o primeiro dado objetivo sobre quanto custa cumprir o conteúdo local.
A EPE dedica parte da nota à literatura sobre preços de reserva em leilões, e o dilema descrito ali é conhecido. Um teto baixo demais esvazia o leilão, porque afasta projetos que não conseguem cobrir seus custos. Um teto alto demais pode transferir renda do consumidor para os vencedores, embora, em leilões descendentes com boa concorrência, o preço tenda a cair rapidamente. Há autores que defendem tetos elevados, até o dobro do preço de equilíbrio anterior, para atrair participantes. A EPE trata essas referências como suporte conceitual, não como regra, e adota uma abordagem baseada em custos.
A lógica da curva de oferta
O procedimento conceitual tem quatro passos. Estima-se a demanda a contratar. Estima-se a oferta que pode ser habilitada. Calcula-se um preço de referência para cada projeto ou configuração e ordenam-se esses preços do menor para o maior. Por fim, cruza-se a oferta acumulada com a demanda: o preço de referência do bloco que completa a quantidade necessária serve de base para a recomendação do CMR.
Duas observações da nota ajudam a interpretar o resultado. A primeira é que a curva não faz parte de um único projeto de referência. Diferentes portes e configurações compatíveis com o produto, incluindo o mínimo de 30 MW, são considerados, e a EPE ressalta que não assume que projetos maiores sejam necessariamente mais baratos. A segunda é que os dados declarados pelos empreendedores no cadastramento no sistema AEGE são uma fonte relevante, mas não exclusiva. Eles são criticados, normalizados e confrontados com faixas de referência independentes, como as projeções do NREL, da IRENA, da IEA e do Banco Mundial, bem como com informações agregadas de fabricantes, desenvolvedores e bancos. Valores atípicos, incompletos ou não verificáveis podem ser descartados.
Isso tem uma implicação prática. O teto reflete o projeto marginal, não o competitivo. Se a demanda for alta em relação à oferta habilitável, o projeto marginal tende a ser caro e o teto, alto. Se houver muita oferta, o teto se aproxima do custo de projetos médios. Em ambos os casos, os vencedores tendem a ficar abaixo dele. O preço-teto não é uma meta de lance.
Como o preço de referência de cada projeto é calculado
O cálculo usa fluxo de caixa descontado. Para cada configuração, a EPE projeta investimentos, custos, tributos e financiamento ao longo do horizonte de análise e determina a Tarifa de Equilíbrio: a Receita Fixa anual que torna nulo o valor presente líquido do projeto. É o menor valor que remunera o capital investido à taxa exigida.
Os principais componentes são estes:
- Investimento: todos os desembolsos diretos e indiretos, incluindo conexão, sistemas de proteção contra incêndio, gerenciamento térmico, licenciamento, comissionamento, custos de nacionalização, incluindo o Imposto de Importação, e o custo das garantias do leilão. O sobredimensionamento inicial faz parte do investimento.
- Reposições e augmentation: entram no fluxo de caixa no momento estimado em que ocorrem, sem dupla contagem com o sobredimensionamento.
- Operação e manutenção: apenas custos fixos, como monitoramento, manutenção, climatização e equipe, independentemente do número de ciclos.
- Encargos e tributos: tarifa de uso da rede apenas na parcela de geração, seguro operacional, TFSEE, IRPJ e CSLL conforme o regime aplicável e, sob avaliação com a ANEEL, P&D. CBS e IBS ficam fora da Receita Fixa, e o enquadramento no REIDI está sendo avaliado.
- Financiamento: estrutura de capital, juros, carência e amortização com base em referências de mercado, com condições do BNDES calibradas para o produto com conteúdo nacional, e juros durante a construção por meio de empréstimo-ponte.
As premissas que mais mexem no resultado
Atenção a um ponto que o edital publicado resolveu e que muda a tabela: a data-base. O texto original dizia “data-base de maio de 2026”. A nota técnica usa o mês anterior à publicação da Portaria nº 136, de 1º de junho de 2026 — ou seja, maio de 2026 — e essa referência foi mantida no cálculo do teto publicado. O que mudou é que agora existem dois números fechados: quem comprar equipamento com câmbio de novembro ou dezembro de 2026 já sabe exatamente qual referência cambial está embutida nos tetos de R$ 1,76 milhão/MW.ano do Leilão 5/2026 e de R$ 1,58 milhão/MW.ano do Leilão 6/2026.
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Premissa da EPE |
Efeito sobre o preço de referência |
O que significa para o lance |
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Horizonte de 15 anos, igual ao contrato |
Todo o investimento é recuperado no prazo contratual |
Receitas após 2043 não estão no teto; se o projeto contar com elas, pode ofertar abaixo |
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Sem valor residual |
Eleva o preço de referência |
Postura conservadora que tende a favorecer o empreendedor |
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Depreciação linear em 15 anos |
Uniformiza o efeito fiscal |
O tratamento contábil do projeto real pode diferir |
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Sem prêmio para penalidades de RTE e despacho |
Não eleva o preço de referência |
O risco de desempenho precisa ser precificado pelo próprio empreendedor |
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Sem contingências genéricas |
Não eleva o preço de referência |
Custos sem fundamentação técnica não terão espaço no teto |
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Data-base de maio de 2026 e câmbio médio do mês |
Fixa custos importados nessa referência |
Variações cambiais posteriores recaem sobre quem oferta |
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Bonificação locacional fora do cálculo |
Não altera o teto |
O bônus só afeta a classificação, não o valor máximo |
A leitura conjunta da tabela agora tem dois destinos certos: o R$ 1,76 milhão/MW.ano do Leilão 5/2026 e o R$ 1,58 milhão/MW.ano do Leilão 6/2026. A ausência de valor residual empurrou o teto para cima. Já a decisão de não precificar riscos de desempenho e de não incluir contingências genéricas manteve o teto mais próximo do custo técnico do projeto marginal. A EPE justifica a segunda escolha com o argumento de evitar dupla contagem: o contrato já penaliza desvios de eficiência, liquidados no Mercado de Curto Prazo, e falhas de despacho, com abatimento da Receita Fixa. O argumento é coerente do ponto de vista do comprador. Do ponto de vista do vendedor, isso significa que a margem para esses riscos precisa sair do espaço entre o seu custo e o teto.
O detalhe do câmbio e da data-base
A base de dados financeira da modelagem é o mês anterior à publicação da Portaria nº 136, de 1º de junho de 2026. Custos cotados em moeda estrangeira são convertidos pela média do câmbio daquele mês, critério alinhado ao utilizado pelo ministério nos estudos de planejamento.
Para um ativo em que células, inversores e boa parte dos componentes são importados, isso não é um detalhe. Se o real se desvalorizar entre a data-base e o fechamento do contrato de fornecimento, o custo do empreendedor aumenta, mas o teto não acompanha esse aumento. Se o real se valorizar ou o preço das células continuar caindo, o movimento será o inverso. O CRCAP prevê a atualização monetária da receita, mas essa atualização não protege contra a variação cambial no momento da compra dos equipamentos — e, com os tetos agora fixados em R$ 1,76 milhão/MW.ano no Leilão 5/2026 e em R$ 1,58 milhão/MW.ano no Leilão 6/2026, esse descasamento deixou de ser hipótese e passou a ser um risco mensurável.
A EPE informa que poderá atualizar as premissas até a data do cálculo, caso surjam informações novas, verificáveis e materialmente relevantes, e que realizará análises de sensibilidade sobre câmbio, juros e preços de equipamentos. Os resultados dessas análises, porém, não serão divulgados.
Como usar o preço-teto na decisão
A forma mais útil de olhar o teto é como uma régua externa contra a qual o empreendedor mede o próprio custo. Isso pede três passos.
O primeiro é calcular a própria tarifa de equilíbrio com as próprias premissas, incluindo o que a EPE deixou de fora: risco de desempenho, custo efetivo das garantias, exposição cambial até a compra dos equipamentos. O segundo é comparar essa tarifa com os tetos já conhecidos — R$ 1,76 milhão/MW.ano no Leilão 5/2026 e R$ 1,58 milhão/MW.ano no Leilão 6/2026. O terceiro é olhar a distância entre os dois.
Se a tarifa de equilíbrio do projeto estiver próxima do teto, o projeto provavelmente é marginal: entra no leilão, mas dificilmente sobrevive à etapa contínua de lances. Se estiver bem abaixo, há espaço para competir e a questão passa a ser quanto desse espaço vale a pena ceder em relação ao teto do certame escolhido. Os fatores que determinam essa posição, como conexão, perdas, estratégia de degradação e custo de capital, são os mesmos discutidos no artigo sobre o que torna um projeto de baterias competitivo no LRCAP 2026.
O preço-teto, portanto, não diz quanto ofertar. Diz quanto espaço existe. E agora esse espaço tem limites explícitos, com datas marcadas: as sessões de 2 de dezembro de 2026, para o Leilão 5/2026, e de 4 de dezembro de 2026, para o Leilão 6/2026. Grande parte dos desenvolvedores não tem um único projeto, mas uma carteira de terrenos, pontos de conexão e configurações possíveis, cada um com sua própria posição na curva. A pergunta que fica é qual deles levar ao leilão e com que critérios fazer essa escolha. É exatamente essa a pergunta que a HP responde: a ferramenta cruza o custo de cada configuração da sua carteira com os tetos publicados dos dois leilões, ranqueia as alternativas e mostra, em minutos, qual projeto tem a maior chance real de sobreviver à etapa contínua de lances — e em qual certame ele é mais competitivo.