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Armazenamento · · · 10 min de leitura

O que torna um projeto de baterias competitivo no LRCAP 2026

No leilão de armazenamento de 2026, vence quem conseguir entregar quatro horas de potência por 15 anos, cobrando a menor Receita Fixa por megawatt disponível. Parece uma disputa de CAPEX e, em parte, é. Mas dois projetos com o mesmo custo de equipamento podem chegar ao leilão com preços muito…

No leilão de armazenamento de 2026, vence quem conseguir entregar quatro horas de potência por 15 anos, cobrando a menor Receita Fixa por megawatt disponível. Parece uma disputa de CAPEX e, em parte, é. Mas dois projetos com o mesmo custo de equipamento podem chegar ao leilão com preços muito diferentes, e um deles pode vencer mesmo cobrando mais. A diferença está em decisões que raramente aparecem na primeira planilha: onde o sistema se conecta, quanto ele perde entre a bateria e o ponto de medição, como enfrenta a degradação, quanto custa o dinheiro que o financia e se o cronograma é realista.

Este artigo analisa esses fatores à luz das regras do LRCAP Armazenamento 2026, com base na Portaria Normativa MME nº 136/2026, na minuta do Edital nº 6/2026-ANEEL e na Nota Técnica da EPE sobre a metodologia do preço-teto.

O que o leilão realmente compra

O objeto do certame é disponibilidade de potência. O sistema precisa ter pelo menos 30 MW de potência instalada e entregar a potência máxima por 4 horas em cada ciclo completo. São admitidos até dois ciclos por dia, limitados a 366 ciclos por ano, com recarga completa em no máximo 6 horas. A eficiência de ciclo completo (RTE) deve permanecer em pelo menos 85% durante todo o contrato.

A remuneração também é específica. O empreendedor oferta uma Receita Fixa anual, e a classificação é feita pelo preço de lance, em reais por megawatt-ano. A energia usada para carregar e a energia injetada são liquidadas no Mercado de Curto Prazo ao PLD, e o resultado dessa liquidação, positivo ou negativo, vai para a Conta de Potência para Reserva de Capacidade, não para o empreendedor.

Essa regra muda a lógica da competição. Em mercados onde a bateria captura a arbitragem entre preços baixos e altos, um projeto pode aceitar uma remuneração fixa menor apostando na receita variável. Aqui essa aposta não existe. A Receita Fixa precisa cobrir, sozinha, o investimento, a operação, os tributos e o custo de capital. Competitividade, neste leilão, é essencialmente uma disputa de custos totais e de risco.

O megawatt que importa é o do ponto de medição

O compromisso contratual é medido no ponto de conexão, não nos terminais da bateria. Entre um e outro, há perdas na rede coletora de média tensão, no transformador elevador e na linha de conexão, além do consumo dos sistemas auxiliares, como os de climatização e controle. A EPE deixa claro que a modelagem do preço-teto considera todos esses fatores para estimar a capacidade que precisa ser efetivamente instalada.

Na prática, isso significa que todo projeto instala mais energia e mais potência do que vende. A questão competitiva é quanto mais. Um arranjo elétrico com subestação próxima, linha curta e auxiliares eficientes requer menos sobredimensionamento para entregar a mesma potência contratada. Cada ponto percentual de perda evitado reduz o CAPEX por MW vendido.

Há também um efeito indireto. As garantias do leilão são calculadas com base na potência instalada. Um projeto que precisa de muita potência adicional para compensar perdas paga mais caro pelo próprio direito de disputar.

Degradação: pagar agora ou pagar depois

Baterias perdem capacidade com o tempo, com os ciclos, com a profundidade de descarga e com o calor. Em um contrato de 15 anos com até 366 ciclos anuais, a capacidade instalada no primeiro dia não será suficiente no décimo. O projeto precisa de uma estratégia para continuar a entregar quatro horas no ponto de medição até 2043.

Existem duas formas básicas de resolver isso, e combinações entre elas. A primeira é instalar capacidade extra desde o início, o que aumenta o investimento inicial e reduz as intervenções futuras. A segunda é o augmentation: adicionar módulos ao longo do contrato, à medida que a degradação avança. A EPE trata as duas como equivalentes desde que atendam ao contrato, trazendo os desembolsos futuros a valor presente.

O augmentation tem atrativos claros. Adia investimento, o que pesa a favor quando o custo de capital é alto, e aproveita a tendência de queda no preço das células. Mas carrega riscos que o sobredimensionamento inicial não carrega: depende de preços e disponibilidade futuros, exige obras com o sistema em operação e mistura células de idades diferentes, o que pode afetar a eficiência. Um projeto competitivo não é o que escolhe a estratégia mais barata no papel, mas o que escolhe uma estratégia coerente com a garantia do fornecedor, com o regime de operação esperado e com a exigência de manter a RTE mínima ao longo de todo o contrato.

Esse último ponto merece atenção. Desvios de RTE são liquidados financeiramente no Mercado de Curto Prazo, e falhas no atendimento aos despachos do ONS geram abatimentos na Receita Fixa. A EPE optou por não incluir no preço-teto nenhum prêmio para esses riscos, por entender que o desenho contratual já os aloca ao empreendedor. A consequência é simples: quem não precificar o próprio risco de desempenho estará ofertando abaixo do seu custo real.

Conexão: o fator que mais diferencia projetos parecidos

Se a engenharia define quanto o projeto custa, a conexão, muitas vezes, define se ele consegue ser contratado. O LRCAP 2026 classifica os lances com base na capacidade remanescente de escoamento do sistema. Um projeto bem posicionado em preço pode ficar de fora se a região elétrica à qual ele se conecta já estiver saturada por lances mais baixos.

A minuta do edital traz uma exceção importante. O lance de um sistema que tenha apresentado à EPE, na habilitação técnica, os contratos de uso e de conexão já celebrados é classificado independentemente da capacidade remanescente. Ter a conexão contratada não é apenas uma redução do risco de implantação: é uma vantagem no próprio mecanismo de classificação.

Outro elemento é a bonificação locacional. Sistemas conectados aos barramentos listados no Anexo II da Portaria nº 136/2026, escolhidos pela EPE com base em critérios técnicos relacionados às necessidades do sistema, recebem uma constante de bonificação que reduz o preço de lance apenas para fins de classificação. O projeto continua recebendo a Receita Fixa ofertada. Na prática, um sistema em barramento bonificado pode vencer ao cobrar mais do que um concorrente fora dessas localizações. E a elegibilidade é fixa: o edital não permite alterar o ponto de conexão após o leilão, de modo a perder ou ganhar o benefício.

A localização ainda pesa nos custos. Como sistemas submetidos integralmente ao despacho do ONS têm demanda contratada de consumo igual a zero, a tarifa de uso da rede incide apenas sobre a parcela de geração, que varia conforme o ponto de conexão. E o ONS deve indicar, 30 dias após o leilão, eventuais reforços decorrentes da superação do nível de curto-circuito, com custeio regido pelas regras de acesso à transmissão. Um ponto de conexão barato no estudo pode ficar caro depois.

Financiamento: o custo do dinheiro pesa tanto quanto o da bateria

Sistemas de baterias são intensivos em capital. Quase todo o custo está no investimento inicial e nas reposições; o custo operacional é relativamente pequeno. Isso torna o custo de capital uma das variáveis mais sensíveis do preço. A metodologia da EPE adota um horizonte de 15 anos, sem valor residual ao final: o investimento deve ser recuperado ao longo do contrato.

O certame tem dois produtos, e o financiamento é o principal fator que os diferencia. O Produto A, disputado no Leilão nº 5/2026 em 2 de dezembro, exige requisitos mínimos de conteúdo nacional e pode acessar condições diferenciadas do BNDES, como as linhas Finem e Fundo Clima. O Produto B, no Leilão nº 6/2026, em 4 de dezembro, é aberto a equipamentos importados e depende das condições de mercado. A EPE afirma que não pressupõe que a nacionalização resulte em preço maior ou menor: um equipamento possivelmente mais caro pode ser compensado por um crédito mais barato. Projetos no Nordeste ainda podem avaliar o FNE Verde do Banco do Nordeste.

Há uma regra de sequência relevante. Um sistema que tiver oferta atendida no Leilão nº 5 não pode ofertar no Leilão nº 6. A decisão sobre em qual produto concorrer e com qual estratégia de suprimento, precisa ser tomada antes.

No lado tributário, contam-se o Imposto de Importação sobre células, inversores e demais componentes, conforme a classificação fiscal de cada item, e a possibilidade de enquadramento no REIDI, que suspende a cobrança de CBS e IBS. A Receita Fixa não deve incluir CBS e IBS, que, pela reforma tributária, não integram o preço do serviço. Erros nessa base mudam o lance diretamente.

Execução: um cronograma curto que não perdoa

Com o leilão em dezembro de 2026, a homologação prevista para abril de 2027 e o início do suprimento em agosto de 2028, o intervalo entre a autorização e a operação comercial é de pouco mais de um ano. Nesse período, cabem o licenciamento ambiental, a contratação e a entrega de equipamentos novos, as obras de conexão e a certificação do ONS, que pode levar até seis meses entre a submissão e a análise.

Um atraso superior a 90 dias na operação comercial pode custar entre 50% e 100% da garantia de fiel cumprimento. Por isso, a competitividade inclui algo que não aparece no preço: a probabilidade de entregar no prazo. Projetos com terreno assegurado, licença encaminhada, conexão contratada e fornecedor com capacidade comprovada carregam menos risco e podem ser ofertados com menor margem de segurança.

Porte: maior nem sempre é melhor

A escala reduz os custos unitários de engenharia, de conexão e de operação. Mas projetos maiores exigem garantias maiores, maior patrimônio líquido para habilitação e maior capacidade de escoamento no ponto de conexão. Há ainda uma sutileza na sistemática: quando falta pelo menos 30 MW para completar a quantidade demandada e há um lance marginal, o proponente desse lance pode ratificar a oferta apenas pela quantidade remanescente. O porte ideal depende de onde o projeto está e de quanto o sistema pode absorver ali.

Coerência, não um único número

Fator

Por que pesa no LRCAP 2026

O que observar

Perdas e auxiliares

Contrato medido no ponto de conexão

Sobredimensionamento necessário para entregar 4 h

Degradação

15 anos, até 366 ciclos/ano, RTE ≥ 85%

Coerência entre augmentation e garantia do fornecedor

Conexão

Classificação depende de escoamento

CUST/CCT celebrados, barramento bonificado, reforços

Financiamento

Receita Fixa paga todo o capital em 15 anos

Produto A ou B, linhas disponíveis, estrutura de capital

Tributos

Base do lance exclui CBS e IBS

Imposto de Importação, REIDI, regime de lucro

Execução

Pouco mais de um ano até a operação

Licença, suprimento, certificação do ONS

O projeto competitivo não é o que vence em um desses fatores, mas o que não perde em nenhum deles. Um CAPEX baixo pode ser anulado por um ponto de conexão saturado. Um financiamento barato pode ser anulado por um cronograma que não fecha. A análise só é útil quando se olha para o conjunto.

Para chegar a esse conjunto, o empreendedor já terá dimensionado o compromisso financeiro de participar do leilão, tema discutido em detalhe no artigo sobre as garantias exigidas no LRCAP 2026 e as situações em que podem ser executadas. Mas ainda falta uma referência. Competitivo em relação a quê? Antes de enfrentar os concorrentes, todo lance precisa ficar abaixo de um limite definido com base em um cálculo da EPE, que estima o custo do projeto marginal necessário para atender o sistema. Entender como a EPE chega ao preço-teto do leilão ajuda a determinar a margem entre o custo de um projeto e o valor máximo que ele pode ofertar.

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